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segunda-feira, novembro 24, 2014

Qualintéfaro e o messias das coisas pequenas

Após uma particularmente robusta refeição de raízes de mandioca, adormeceu Qualintéfaro sob a sombra de um plácido bordo. Em sonhos foi visitado por um pequeno homem, não maior que a sua mão, vestindo uma toga e carregando um bordão do tamanho de uma colher de chá.
Devante o rosto de Qualintéfaro, deitado na relva, o ancião apartou a barba e anunciou solenemente:
"Eu sou o messias das coisas pequenas, Qualintéfaro. Não venho anunciar o Fim do Mundo; nem a Iminência do Novo Éon; nem Resgatar o País da Crise Financeira."
Pouco impressionado, retorquiu-lhe Qualintéfaro enquanto esfregava um olho sonolento:
"Nesse caso, o que messias tu, ó messias, e porque importunas o meu sono com coisas de somenos?"
"Ah!", respondeu o pequeno homem, o seu rosto subitamente iluminado, "E quem te diz que, por serem menores, as minhas revelações são de irrelevante importância? Trago comigo, para quem ousar seguir-me, coisas como A Sabedoria Para Reconhecer o Que Se Entende Como Certo; A Vitalidade Para Agir Em Conformidade; e a Paciência Para Aturar As Merdas Dos Outros. Ousas reclamar que são bênçãos menores?
Antes que pudesse responder, Qualintéfaro foi subitamente arrancado ao sonho. Assim sendo, ficou remoendo a revelação, deitado sob a sombra de um bordo, enquanto corria uma fresca brisa.

A moral da história?
Não te abrigues debaixo de uma árvore durante uma tempestade.

Anónimo

segunda-feira, junho 16, 2014

Qualintéfaro e o Ser Humano

Certo dia, o nosso preferido encontra um bípede ajoelhado, chorando, rodeado de flores, laranjas e amarelas, cores garridas, a protegê-lo das intempéries.
O chão molhado das chuvas de um Verão desajustado, atabalhoam o andar do nosso protagonista.
Mas, com algum esforço, ele aproxima-se da criatura.
"Que se passou, meu caro?"
"Escolhi mal... não é a primeira vez, e agora me apercebo que não será a última..."
"Mas se tiveres vontade de mais, mais virá" - diz Qualintéfaro.
"Pois eu sei, mas sei também que não saberei escolher correctamente." - responde o Homem.
"Sei bem que não sabes escolher, és a única criatura que não o sabe..." - confirma Qualintéfaro - "Mas o futuro não é teu, as nuvens farão de ti a mesma sombra que as árvores".

Moral da história:
O Ser Humano é o único animal que pensa e mesmo assim escolhe mal.

Anónimo

quinta-feira, março 13, 2014

Qualintéfaro e a Larva

Em tarde de Primavera, Qualintéfaro apercebe-se de que uma pequena larva, pálida e magra, se tinha apoderado de um recanto da sua parede da sala.
Foi de tal maneira poderosa a conquista, que nem a luz incidia por lá, com medo da nova rainha do centímetro-quadrado.
Mas sem receio, Qualintéfaro aproxima-se e inquire a larva:
- Minha querida, pensei que por esta altura já serias borboleta, mas há parece-me que há meses que não procuras alimento para poderes ascender a um novo estado.
- Verdade meu caro, eu cá gosto deste meu espaço, pois aquilo que gostavas que um dia me tornasse, já eu fui um dia.

Moral da história: Faz o que te apetece, se sabes por onde andaste.

Anónimo

terça-feira, outubro 22, 2013

Qualintefarus and the Mayfly

In his adventures Qualintefarus met a queen mayfly crying for help.
She was dying and had not yet found a mate to continue the legacy that her family had bestowed upon her.
And so Qualintefarus asked her:
- What can I do to help you Highness?
And she replied:
- Mate with me so that our children can see the world and I can die happy.
But Qualintefarus was confused.. How would he mate with an insect? And so he questioned her about this.
And she replied:
- For I am the Queen that rules all this valley, and I can transform into a human for a day. Then we can mate.
And so Qualintefarus as curious and accepted. And upon seeing the beauty transformed in front of him he took her to the nearest town and showed her all the things she never saw before as a human being.
And she was delighted...
And then she asked our hero when were they going to mate. But Qualintefarus did not answer.
And they continued and he showed her the Theater and the Museum, and the Library and the Town Hall and the ways of the people.
And she was astonished...
And in the end she queried again, would they mate at all? But Qualintefarus did not answer.
At the end of the day Qualintefarus watched her die and she asked why did he not mate with her.
- Because legacy is not as important as the fun you had today.


Moral of the story:
Today what you think is right, might just be a preconception.

Anónimo

quarta-feira, abril 17, 2013

Qualintéfaro e o Lagarto Literal

Num dos seus incontáveis périplos pelo globo, aconteceu Qualintéfaro cruzar-se com uma peculiar criatura, que se espraiava languidamente sobre um penedo. Da seguinte forma se lhe dirigiu o viandante:
— Bom dia, nobre lagarto. Que fazes tu neste local tão inusitado? Não via viv'alma há que dias!
Entreabrindo um olho preguiçoso, o lagarto lhe respondeu:
— O que faço eu aqui? Penso que está isso à vista de qualquer um: Espraio-me indolentemente ao Sol. Quanto à qualidade do dia, não sei o que possa dizer – não o conheço o bastante para dele ter opinião formada.
— Hum, enfim, não era bem isso que eu queria dizer. — Retorquiu o perplexo Qualintéfaro — O que quero saber é o que te trouxe a estas paragens...
— Ora, mais uma vez perguntas o óbvio: o que me trouxe foram estas quatro fiéis patas, sobre as quais me venho deslocando há já alguns anos.
Sentindo já a sua justa cólera apoderar-se de si, Qualintéfaro deu um pontapé na terra, cuspiu no chão e, rodando sobre os seus calcanhares, começou a afastar-se do penedo enquanto bradava:
— Verme miserável! Se o que pretendes é rir-te às minhas custas estás com azar. Bem podes apodrecer nesse calhau!
O lagarto acompanhou por instantes com o olhar o homem que se afastava. Depois, voltou a fechar os olhos e enquanto ajustava ligeiramente a sua posição sobre a pedra, comentou, sibilino:
— Curioso indivíduo. Pensava que o riso era bem que se pudesse comprar com moeda... E teimava em observar o evidente: cada segundo que passa nos aproxima todos da putrefacção.

A moral da história?
A cavalo dado não se olha o dente, ou coisa assim.

Anónimo

segunda-feira, abril 16, 2012

Qualintefarus and the Blind Man

One day, Qualintefarus passes by a homeless man with a sign that only said: "Move along please."

Struck by the strangeness in this sign he approaches, and as he does so, the man says:
"Please, move along, I may be blind, but can sense you nearing me."
"But sir." - says Qualintefarus - " I just wanted to help."
"No need, m'lord." - answers the man - "I have no part in this world, so don't make me be part of this world."
"I have gouged my eyes out, had no strength to take the rest, my tongue, my hears, my hands..."
"But why would you do that??" - asked harshly Qualintefarus.
"I have seen every corner in this world, touched every wench's breasts, spoke every language, tasted every drop of water, moved every stone. Don't want anything with it anymore."
"Why don't you just kill yourself then???" - stated Qualintefarus angrily.
"Then it would be my choice."

And Qualintefarus walked away, almost depressed, but glad the man had a choice.

Moral of this story:
"The flowers in an homeless man's garden are just as stupid as yours"

segunda-feira, março 05, 2012

Qualintéfaro e a Caverna

No final dos seus dias, Qualintéfaro viaja, deambulando sem rumo pelas montanhas, suas vizinhas. E, certa ocasião, depara-se com uma pequena caverna, escondida por detrás de uns fetos mutantes.
Era uma caverna bastante medonha, de tom sombrio e, por estar escondida de qualquer indício de luz, exalava um odor fétido e seco, tal que parecia atacar fisicamente quem se aproximava.

Qualintéfaro, aventureiro como sempre foi, não hesitou e avançou escuridão a dentro.


No interior, uma brisa uterina abraça-o lentamente enquanto avança. Cada vez que dá um passo, o tecto diminui e as paredes aproximam-se. A escuridão aumenta assim como o conforto. Qualintéfaro encolhe-se e aconchega-se na profunda chaga do Planeta.

E lá ficou, para nunca mais ser visto.
Moral da história? Para quê?

Anónimo

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Qualintefaro e as 3 pedras

Certo dia, um dia escuro e feio, Qualintéfaro passeava sozinho. Pelo seu caminho encontrou três pedras, e em cada uma delas uma lição.

Na primeira encontra uma minhoca, uma minhoca bastante feliz que lhe conta a sua história: "Vivo a minha vida a lutar contra o peso do Mundo para conseguir ver o Sol, ainda bem que ontem choveu, pois hoje posso ser a minhoca mais feliz do Mundo".
Qualintéfaro prontamente a corta a meio e come-a.
- "Tem cuidado com aquilo que almejas".

Na segunda pedra encontra uma doninha que lhe conta a sua história: " Vivo sempre sozinha, não consigo ter amigos por causa do meu mau cheiro. Vivo por um abraço." Qualintefaro pede-lhe para não se defender com o seu cheiro que lhe quer dar um abraço, mas quando se aproxima, espeta-lhe com a sua faca, matando-a e fazendo um belo cachecol de doninha para aquele frio.
- "Tem cuidado com quem se faz passar por amigo".

Na terceira pedra encontra um crocodilo muito amistoso: " Dá cá um passou-bem ó viajante!". Qualintéfaro aperta-lhe a mão e sofre um choque que lhe percorre o braço até ao coração. Prontamente dá-lhe um tiro no meio dos olhos.
- "Tem cuidado comigo".

Moral da história: Há dias em que o Qualintéfaro é um badass!

terça-feira, janeiro 11, 2011

Qualintéfaro e o dilema do ouriço

Nevava sem parar há dias na paisagem incógnita que Qualintéfaro explorava, apanhado de surpresa pelo inusitado nevão. A sua situação era desesperada: andava aos caídos, enregelado e esfomeado, sem vislumbre de arbusto ou baga ou erva que pudesse trincar, ou fera que pudesse caçar. Vinha já sendo tentado por medonhas alucinações, qual Santo Antão psicadélico, acossado pelo acre bafo da Morte, quando vislumbrou uma pequena reentrância sob as raízes torcidas de uma árvore há muito morta. No limite das suas forças, decidiu nela abrigar-se e esperar a morte em relativo conforto.
Ao aninhar-se no espaço exíguo entre o solo e as raízes levantadas, foi com enorme espanto que constatou que uma família de ouriços-cacheiros haviam ali feito o seu ninho, todos enroscados numa massa compacta de espinhos ao ar. Qualintéfaro compreendeu que tinha ali a sua única oportunidade de se aquecer, encostando o seu corpo ao dos ouriços e partilhar do calor que os seus corpos emanavam. Mas mal o fez – pobre Qualintéfaro! – a sua pele tenra, ainda mais pelo frio, agonizou com a dor provocada por mil agulhas sendo espetadas, e com um Ai! o seu corpo se afastou num impulso.
Por mais que tentasse, Qualintéfaro foi incapaz de encontrar uma posição que lhe permitisse encostar-se o suficiente para derivar algum conforto, entre o frio do exterior e as picadas dos espinhos. E foi com pensamentos de desolamento que ali adormeceu, abraçado a si próprio, no chão frio da estepe.

A moral da história? Quando neva faz frio, estúpido.

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Qualintéfaro e a Lagarta Esperança

Numa daquelas tardes de Outono, Qualintéfaro encontra uma lagarta que se abastece de folhas para o Inverno.
A lagarta prontamente responde a todas as suas questões:
- Sou a Lagarta Esperança. Tenho centenas de anos e nunca mudei, mas pergunto-te a ti, que gostavas que eu fosse?
- Gosto de ti assim - diz Qualintéfaro - não te imagino de outra maneira - reitera.
- Mas se eu fosse a mudar, não me preferias mais bela e capaz? Talvez voasse, talvez tivesse nas patas as cores do arco-íris.
- Não - diz o nosso amigo - prefiro-te assim, gorda, feia e feliz. Só assim evito comer-te.
- Pois te digo, em breve mudarei, e voarei para longe e nessa altura, talvez tenhas pena de nunca me teres provado.

Qualintéfaro hesita por momentos e num ápice põe a lagarta à boca e come-a.
Era de facto deliciosa! Nunca imaginou que existisse algo tão saboroso no Mundo conhecido.
Pouco tempo depois imaginou a lagarta a transformar-se numa bela borboleta que voava livremente pelos ventos do Sul e teve pena de não a ter visto assim.
É então, que, de repente, arrota e sai-lhe pela boca uma bela borboleta de cores garridas e graça divinal.
- Obrigado - diz a borboleta - Chamo-me Borboleta Esperança e se não fosses tu a comer-me teria que esperar mais umas centenas de anos para me transformar. Nunca quis mudar, mas ainda bem que me comeste.

Moral da história: Mudar é difícil, mas se não comeres, morres de fome.

Anónimo

quarta-feira, outubro 13, 2010

Qualintéfaro e o Coleccionador de Azares - Parte 2

Apanhado desprevenido, Qualintéfaro estava a ser humilhado por um pequeno e velho macaco de seu nome Zintólas.
As máquinas deste macaco despiam-no e roubavam-lhe todos os seus pertences. E o macaco ria-se.
Mas extraordinariamente, as máquinas passaram a medi-lo e a calculá-lo. E de repente, roupas maravilhosas apareciam pelo meio dos braços mecânicos e passaram a vesti-lo.
O seu relógio, que tinha deixado, por preguiça, de contar o tempo, tocava agora os segundos com nova força. A sua mochila que apresentava anos de uso, era substituída por uma bela e robusta mochila de cânhamo. O seu saco-cama remendado, o seu chapéu sacudido e as suas botas limpas e polidas, remendadas e com nova sola.
Estava espantado com tal celeridade, qualidade e hospitalidade.
Assim, depois de pousado pelas máquinas, parecia um homem novo.
- Como?... Porque fez isto? - perguntou Qualintéfaro ao macaco.
- Faço o que posso por quem me visita. Digamos que é um acto de redenção.
- Hum... Pois farei algo por si também. Infelizmente é a única coisa que posso fazer, espero que ajude: conte-me a sua história para que nas minhas crónicas seja lembrado para toda a eternidade.
O macaco levanta a sua bengala da mesa onde estava "espetada" e todas as máquinas desaparecem como por magia, escondendo-se no meio das outras mil geringonças e móveis estranhos que preenchiam a tenda.
- Acho que pode ser. Contar-lhe-ei a minha história e espero que um resultado prático ocorra... Está a ver aquele baú? Pois no seu interior estão fechados todos os azares com que me deparei ao longo da minha longa vida. Eu sou um coleccionador de azares.
- Como é possível armazenar azares? - pergunta incrédulo Qualintéfaro - Não é o azar algo abstracto?
- Hum.. - responde Zintólas - pois é capaz de ter razão.
O macaco começou a afastar-se em direcção ao baú. Este estava coberto de um emaranhado de cordas e de roldanas como uma capa de algodão gasta e demasiado remendada. Ao aproximar-se, puxa uma das cordas e um guinchar estridente solta-se em uníssono quando as roldanas começam a mexer-se. A tensão era enorme, a tampa do baú gigantesca e ferrugenta.
No final daquele acto medonho, que mais parecia a matança do porco, o baú apresentou-se aberto para os dois senhores.
Após alguns segundos de silêncio, enquanto o pó assentava, começou a ouvir-se um pequeno oboé... e depois um quarteto de violinos, a seguir violoncelos, e de novo os sopros com trombetas e trombones. Uma imensa orquestra tocava para os ouvintes.
Qualintéfaro aproximou-se mais e deparou-se com uma verdadeira orquestra, de macacos de dar à corda. Pequenas maquinetas tocavam a mais bela das melodias e o nosso herói ficou pasmado.
- Mas.. como é possível??
- Está a ver este aqui? - Zintólas pega no maestro, que não deixou de gesticular mesmo pendurado no ar. - Este foi o meu primeiro azar. Era eu um jovem macaco, em busca de uma parceira para acasalar. Ia-me declarar naquele dia, quando uma tempestade levou a minha amada. Nesse dia fiz o meu primeiro macaco de dar à corda. E nele está impregnado o cheiro à chuva daquele dia.
Quanlintéfaro olhou para toda a restante orquestra, imaginando os azares pelos quais aquele venho macaco tinha passado. E a sua mente divagou por momentos para os seus próprios azares e como tinha lidado com eles.
Ficou mais um bom bocado a ouvir as histórias de Zintólas, escrevinhando tudo o que ouvia, e no fim agradeceu a incrível hospitalidade que lhe tinha sido oferecida.
Ao afastar-se da tenda do macaco, não deixou de imaginar como seria o mundo se toda a gente tivesse a sua orquestra para contar através da melodia a sua vida.

Moral da história:
Se um macaco nunca vem só, pelo menos que toque música.

Anónimo

segunda-feira, setembro 06, 2010

Qualintéfaro e o Coleccionador de Azares - Parte I

Quando Qualintéfaro era novo e aventureiro, viajante e explorador, costumava mapear as zonas mais conhecidas para poder corrigir aqueles que, por dinheiro e ganância, fome glória, faziam mapas de sítios que apenas visitavam uma vez e vendiam a editoras de mapas por fortunas, garantindo uma qualidade invariável. "Mentiras" dizia Qualintéfaro.
E então, nessas viagens, apontava nos seus cadernos tudo o que via e observava, para poder refutar estes ignorantes.
É numa dessas novas aventuras, que este rapaz encontra uma personagem curiosa.
Num caminho de terra que levava uma terriola a outra, depara-se com um pequeno inventor. De tenda montada a beira estrada, atendia clientes na hora, despachando-os com belas prendas e relógios arranjados.
Atento, Qualintéfaro entrou na pequena tenda corniforme, de ponta vermelha sangue.
Fica mesmerizado com o interior: quinquilharias, cordas e pequenos tambores por todo o lado; rodas dentadas, pregos e parafusos numa enorme mesa à sua frente, todos com a sua etiqueta. E dum lado da tenda, um enorme baú, vestido de cordas e roldanas.
-Bom dia. - disse Qualintéfaro a medo.
-Bom dia, um momento. - uns segundos depois sai um pequeno macaco, de curtos braços e pernas. Com um andar um pouco à pinguim, passa pelos pregos e porcas e atravessa a mesa - Deixe-me vê-lo melhor, aproxime-se! - acrescenta com um tom rouco.
Agora mais perto, via-se o seu pelo esbranquiçado e a sua pequena bengala vermelha.
Leva com a outra mão um pequeno chapéu de coco vermelho a cabeça e pergunta.
- Que posso fazer por ti, moço?
Qualintéfaro responde com alguma prepotência de rapaz armado em homem.
- E então o que pode fazer você por mim???
- Ah! mas que não posso eu fazer por si!! ahahah! - o macaco parece ganhar nova vida e começa a puxar cordas e bater com as patas na mesa; alavancas aparecem de todos os lados e puxa-as também, e de repente uma data de maquinas circundam os dois.
O macaco olha de lado para Qualintéfaro:
- Preparado? Já agora o meu nome é Zintólas, o Inventor dos Macacos. - e espetando a sua bengala na mesa, as máquinas atacam.
Um zombeirão eleva-se na sala como num parlamento de abelhas e as máquinas começam a levantar e a despir Qualintéfaro, roubando-lhe todos os seus pertences.
Neste momento, Qualintéfaro sentindo-se humilhado e roubado começa a espernear e grita:
- Largue-me, Pouse-me, Deixe-me em Paz! Mande-as Parar! - mas o som sai abafado pelos zumbidos das roldanas e do correr das cordas. Esperneia-se mas a sua força não chega para se libertar dos braços de madeira e mãos de latão que o seguram.
O macaco Zintólas aproxima-se com um sorriso, passando à vontade por entre as máquinas.
- Não se preocupe! Não lhe farão mal! Como eu sempre disse: "se houver máquinas para o fazer, porque irei eu sujar as mãos? Sujei-as a fazê-las!"

Anónimo Por Partes

sexta-feira, maio 21, 2010

Qualintéfaro e os Gatos

Numa extremosa noite de verão, Qualintéfaro aproveita para calcorrear alguns caminhos pouco antes percorridos.
Nos inícios ainda via civilização, passando por um mendigo contente e por um empresário triste. Não parou para pensar na inerente estranha beleza.
Passeou mais um pouco parando então para tomar uma pequena ceia que tinha trazido.
Eram sandes de atum. Fica incrédulo quando aparece um primeiro gato.
Qualintéfaro estava sentado num banco, numa subida inclinada, frente a uma casa branca, bastante agradável, se não estivesse tão próxima da estrada. Um único lampião laranja iluminava a cena.
Qualintéfaro dá uma dentada feroz na sande, vendo nos olhos do gato uma perplexidade e tristeza incomparável.
Sentindo a infelicidade do pobre bicho, parte um pouco da sandes e oferece-lhe.
Animado, o gato malhado aproxima-se. À luz, o seu pêlo brilha tons de cinzento e preto.
Agarra-se ao pedaço de pão com atum e um pouco de maionese, e após lamber todo o interior da mini sandes, vira-se para Qualintéfaro e avisa-o:
- Como foste amigo, vou-te avisar do que te espera. Algo de mau vai-te acontecer enquanto percorres este caminho. Tem cuidado.
E foge.
De facto mais à frente, Qualintéfaro tropeça e caí, raspando um pouco o joelho.
Não dando valor a tal acaso, continua o seu passeio. Avança meditando nos pormenores das coisas que o rodeiam, sem dando valor nem significância, muito menos definição ao que absorve. Tudo é único na sua existência. Tudo tem a sua beleza, mesmo aquela calha que vê entre arbustos, por onde cai a mais leve corrente de água.
Pára ali para devorar mais uma sandes, a farta merenda permite-lhe o obséquio.
Assim que dá uma dentada, outro gato aparece. Este de pêlo dourado. Com focinho feliz e cauda arrebitada, aproxima-se, cheirando o atum.
Qualintéfaro permite-lhe umas lambidelas, e o gato afirma:
- Como foste amigo, vou-te avisar do que te espera. Algo de mau vai-te acontecer enquanto percorres este caminho. Tem cuidado.
E foge.
Agora, Qualintéfaro já vai mais cuidadoso, duas vezes acontecer o mesmo torna a viagem enigmática.
Mas mesmo cuidadoso, leva com uma caganita de pássaro no seu colete preferido.
Agora chateado, avança com mais precaução, preocupado com o que lhe pode acontecer. Já não admira tanto a vida, e avança olhando não para o acaso, mas para as possíveis consequências do acaso.
Mas em breve sente-se tentado a parar outra vez, a vista é maravilhosa, e dali consegue ver todo o vale onde a sua humilde casa repousa.
É então que mais um gato aparece, e o processo repete-se. Novamente o gato avisa-o e novamente algo mau acontece a Qualintéfaro.
Mesmo assim, ele continua a sua caminhada, às vezes rabiscando versos de protesto, outras vezes lançando punhos ao céu, mas sempre parando para comer sandes de atum, sempre sendo avisado e sempre sofrendo com os avisos.
Enraivecido, e sem sandes de atum, volta para casa. Mas em frente a casa, já prestes a entrar no seu alpendre, um gato aparece. Aí a sua raiva solta-se:
- Parem de me avisar, estou farto de sofrer as consequências dos vossos augúrios! Augurem coisas boas! Façam-me esperar uma vida prazenteira sem estes estúpidos acasos e más sortes!
- Meu Sr. - diz o gato - vá masé trabalhar!

Moral da história: Se a vida é fodida, não passeies, deixa alguma coisa feita.

Anónimo

domingo, abril 11, 2010

Qualintéfaro e a Serpente de Fios Dourados

Havia na floresta a sul da casa de Qualintéfaro uma serpente dourada. Dizia-se que era dourada porque a sua pele era feita de fios d'ouro, e que em cada um se podia ler o destino de uma pessoa.
Polichinelo que era, Qualintéfaro passava horas naquela floresta, sempre em busca desta serpente.
E não é que um dia a encontra?
Bela tarde passaram perdidos pela floresta em conversas surreais, eticamente rebuscadas e cheias de per-fusões antropológicas.
A certa altura, a serpente, cujo nome viria Qualintéfaro a dar de Percemides, pede-lhe uns momentos e esconde-se atrás dum arbusto. Sai com algo que parecia ser um saco dourado na boca.
Tratava-se de facto da sua pele, pele que tinha acabado de escamar.
Percemides pede então a Qualintéfaro para coser um chapéu, para que ele, quando o vestisse, pudesse saber os destinos de todas as pessoas que viveram naquela Era.
Percemides mudava de pele de centenário em centenário, desde o início do Tempo, ou Afonso, como ela gostava de lhe chamar.
Prontamente Qualintéfaro cose um fabuloso chapéu, dourado, onde a luz reflectia em cada escama um brilho intenso, e por vezes, quase se podiam ver faces de pessoas escondidas por trás daquele radiante assessório.
Percemides quando viu o chapéu vestido, assustou-se e fugiu.
Qualintéfaro, ficou um pouco preocupado na altura, mas (como ainda não tinha sentido nada em relação ao chapéu) deixou-se andar e voltou para casa.
Uns Afonsos depois, vestiu o chapéu quando estava a apanhar sol no seu alpendre e o chapéu revelou-lhe o seu destino e começou a arder.
Qualintéfaro é careca desde então.
Moral da história, nunca vistas fogo como chapéu.

Anónimo

segunda-feira, março 01, 2010

Qualintéfaro e a toupeira

Nas suas perambulações pelo Mundo, múltiplas foram as maravilhas que Qualintéfaro testemunhou. Mas nenhuma terá sido mais desconcertante que a Toupeira.
Certo dia, meditava Qualintéfaro sob a sombra fresca de uma ponte antiga, surgiu-lhe flutuando a visão de uma toupeira, que assim se lhe dirigiu:
"Ouve, Qualintéfaro, tu a quem foram dados olhos de ouvir. Nada mais desejo senão chegar ao Sol. Sou uma criatura solar a quem os malfadados destinos negaram a visão. Aponta-mo, Qualintéfaro, e te concederei aquilo que mais desejares.
Sem uma palavra (pois sabia que o silêncio é a melhor forma de romper a cegueira), Qualintéfaro levantou um braço e com o dedo indicador apontou o chão.
Com um suspiro, a criatura concedeu:
"A tua sentença é justa, e acato-a. Sou uma criatura lunar condenada a perscrutar as profundezas. É essa a minha grandeza e Visão."
Com gestos lentos e solenes a toupeira escavou o solo e por ele deixou-se tragar. A sentença de Qualintéfaro era justa.

A moral da história? Qualintéfaro não deveria ter comido aquela dobradinha antes de meditar.

Anónimo

terça-feira, novembro 10, 2009

Qualintéfaro e o Crocodilo

Vogava Qualintéfaro o deserto há cem dias quando se cruzou com um oásis. Aproximando-se, distinguiu o brilho de um pequeno lago, coisa que muito o animou, pois nem só de areia e de sol vive um homem. Mas, quando dele mais se aproximou, viu que nesse lago vivia um temível crocodilo, que nele havia feito o seu território de caça, cruzando-o pacientemente aguardando o momento em que um animal mais incauto viesse saciar a sede nas águas cristalinas. Avisado, Qualintéfaro bebeu do lago sempre com o crocodilo debaixo de olho, enquanto lhe lançava a seguinte invectiva:
"Descansa besta horrível, que em Qualintéfaro não hás-de encontrar repasto! Vou beber desta água e pernoitar neste teu território, e tu bem que podes morrer à fome."
E assim fez, subindo a uma tamareira que acolá se erguia, e nela construiu um abrigo suficientemente sólido para nele passar a noite fria do deserto. Acontece que, durante as altas horas da noite, alguns frutos maduros que sobre ele se encontravam deixaram cair sobre a face de Qualintéfaro boa porção do seu sumo. E assim, ao acordar, Qualintéfaro viu com grande espanto que a sua cara, reflectida na superfície do lago que lhe servia de espelho matinal, apresentava uma cor azulada.
Vendo a aflição do viajante, o crocodilo, que é uma besta lenta mas terrivelmente astuta, logo o desafiou:
"Pobre desgraçado, foste certamente mordido por um escorpião do deserto! Agora, apenas banhando-te nas águas deste lago poderás salvar a tua vida!"
Tomado de temor pela sua vida, Qualintéfaro deixou os seus cuidados de lado e logo mergulhou o seu corpo nas águas que serviam de casa ao crocodilo. Logo o crocodilo, sarcoteando a sua cauda como um chicote mortífero, se lançou sobre Qualintéfaro e o devorou numa dentada.

Moral da história? As pessoas podem ser muito filhas-das-putas, mas piores são os crocodilos.

Anónimo

terça-feira, agosto 25, 2009

Qualintéfaro

Qualintéfaro perguntou uma vez a seu Mestre:
"Sr. Augusto, as pedras são ásperas, cheiram a terra, sabem a musgo, ouvem-se ao cair e algumas vêem-se ao longe, falésias inteiras. Nós sentimos tudo isto quando estamos na presença duma pedra. Seremos nós como pedras neste Mundo para os outros? Para os outros atirarem, ou deixarem cair, ou chutarem?"

Augusto respondeu solenemente a seu discípulo:
"Sendo nós criaturas, sentimos, as pedras são minerais, não sentem.
Mesmo assim poderíamos dizer que as pedras são nossas primas, nascidas da mesma terra. E deves tentar ser um pouco como as rochas, inertes na infinidade, se alguém te quiser atirar ou chutar, deves ser firme e resiliente como estas rochas.
Mas não te preocupes com tais coisas, continua a bulir como quem te criou, e ensina as tuas crias a bulir como tu agora."

O Mestre Augusto perdeu-se entretanto em álcool e drogas e morreu algures no deserto;
Qualintéfaro matou a mulher e depois suicidou-se com uma overdose de morfina.

Às vezes as pessoas não te atiram ou te dão pontapés, só falam contigo, e isso as pedras não fazem.

Anónimo